V O L T O

Volto. Ao que me investe de ímpeto e de afecto. Volto. Ao rumor das linhas solitárias. De vertigem e abandono. Volto-me às minhas crenças. Ao inconformismo, que eu deixei por aqui. Volto como quem volta de uma grande viagem. Como quem, por fim, volta ao colo materno sugando o bico leitoso do seio da mãe. Volto-me para contemplar tudo aquilo que eu já contemplei. Ao mesmo argumento, às mesmas dúvidas, à palavra convulsa, impetuosa. Palavra espasmo fora de hora, acrescentando o divino que a gente nunca sabe se existe. Palavra que sai fora de todas as lógicas, indo ser livre entre sonhos e esquecimentos. Volto-me para o confuso. Franco. Vazio. Volto para o solitário do poeta. Porque escrever é um acto solitário de reflexão.
Volto. Mais feliz, sim! Mais urgente. Mais afectivo. Como um coreógrafo da mente que dança com o sentimento dos outros. Como uma sombra cansada de sombrear o verde da montanha, escorrendo o verde da tarde. E se eu tento descrever o que vejo, a tarde entardecendo, eu escrevo o verde nos meus versos, que também são de esperança. Ou minto a paisagem e coloro de negro a sombra vegetando o monte. Sem argumento. Sem minúcias.
Então descubro que escrevo o egoísmo da mente, como se eu visse por dentro todas as paisagens do mundo. Solitário arrebatamento... por fora, a máscara quebrando os dias. Por dentro, a máscara dos meus dias quebrando tudo. Cada passo que eu dou é um raio de sol que arrefece, acentuando o acastanhado de olhos que sou. E a boca preenchida pelo sorriso, que se cristalizou.
É para isso que eu volto. Para o verde da tarde. Assombroso. Insuperável. Para a calmaria desse inferno de viver. A palavra esmorecendo. De um vazio sem fundo. E só.
Albino Santos
Volto. Mais feliz, sim! Mais urgente. Mais afectivo. Como um coreógrafo da mente que dança com o sentimento dos outros. Como uma sombra cansada de sombrear o verde da montanha, escorrendo o verde da tarde. E se eu tento descrever o que vejo, a tarde entardecendo, eu escrevo o verde nos meus versos, que também são de esperança. Ou minto a paisagem e coloro de negro a sombra vegetando o monte. Sem argumento. Sem minúcias.
Então descubro que escrevo o egoísmo da mente, como se eu visse por dentro todas as paisagens do mundo. Solitário arrebatamento... por fora, a máscara quebrando os dias. Por dentro, a máscara dos meus dias quebrando tudo. Cada passo que eu dou é um raio de sol que arrefece, acentuando o acastanhado de olhos que sou. E a boca preenchida pelo sorriso, que se cristalizou.
É para isso que eu volto. Para o verde da tarde. Assombroso. Insuperável. Para a calmaria desse inferno de viver. A palavra esmorecendo. De um vazio sem fundo. E só.
Albino Santos







