terça-feira, 31 de Março de 2009

ROTAS CLANDESTINAS

















Por que mares, que rotas, que corrente,
que imaginárias linhas te orientam?
Que forças, que vontade, que vertente,
que marés, que navios, que sextante,
que maré desconhecida e imprudente
te conduz por essa rota tão distante?

És a grande equação duma viagem
que naufraga no meio dos meus braços.
Sem indícios de azul ou descoberta.
Que ao mesmo tempo oprime e me liberta
na rota clandestina dos teus passos.

Não sei onde se cruza o acaso e o destino.
Não sei por onde passa essa linha invisível
duma geometria desafiando o impossível,
reflectida nos meus olhos rasos de ânsia,
quando fito a vaga e proibida azul distância.

Mas sei que em cada rua há uma esquina,
entre o tédio e a rotina há uma abertura.
Há sempre uma hora de fogo e aventura,
há um mar imaginário em cada ensejo…
E hás tu, onde nasce o sonho e o desejo!...

Não me venham pois dizer que nunca mais!
Não me falem do rigor dos pontos cardeais!
Não me venham dizer que se acaba o infinito!
Estão aquém do sonho as leis que me ensinais…
É nas leis que há em mim que eu acredito!

E por mais que seja exacta a geografia,
depois de tanto tempo a esperar por um só dia,
nasceu dentro de mim um Sésamo dourado,
que há-de encontrar o teu nome nas marés,
num beco da cidade, num semáforo fechado,
num sentido proibido, em qualquer lado
há-de haver um olhar que me dirá quem és!...
.
albino santos (in Diálogo de Sombras)
Reservados todos os direitos de autor

sexta-feira, 27 de Março de 2009

SONHO AZUL


Viajo na liberdade do meu sonho,
sussurro quente do azul
onde me deito.
Polvos e medusas desnudam o meu sono,
levam-me submerso
através do azul liquefeito,
até ao virginal desabrochar das pérolas

O sonho incendiado, floresce na bruma
abrindo caminho no azul que me transporta
ao teu ventre de abismo bordado de corais.

No aroma inebriante dos mares nocturnos,
a realidade sucumbe à fantasia.
Bebo a cor do mar,
adormeço na invisibilidade da vida,
e desperto no respirar de uma concha…

.

albino santos / in "Madrugada sem Fronteitas"

Reservados todos os direitos de autor

quarta-feira, 25 de Março de 2009

UM ÚLTIMO SABOR



















Um último sabor escorre das palavras
que o Outono do tempo abandonou
como folha morta que secou…

Um último sabor escorre das palavras
e com elas vão todos os segredos,
fugindo embuçados por entre os dedos…

Amargo sabor, fatal melancolia,
violino que anoitece o sol
onde brilha a mais bela melodia…

Já não há palavras doces no sabor dos lábios
sedentos de loucura e ousadia
onde o poema sempre acontecia.

São agora um gelo duro e frio
as palavras que ardiam por inteiro!

E quando a noite as desejou,
na nudez de um abraço derradeiro,
a chama que ainda ardia... apagou!



albino santos

Reservados todos os direitos de autor

domingo, 22 de Março de 2009

CLANDESTINAS MADRUGADAS


Quando
a noite geme
baixinho
e vagueamos
clandestinas madrugadas
.
Quando
te encolhes
no meu peito,
silencias nos meus braços
e te fazes tão imensa!
Quando
o desejo nos enlaça
e as mãos se libertam
ansiosas...
.
Quando
o fogo nos consome
num ímpeto de prazer
e de calor,
há momentos de sonho
e aventura.
Há rios de amor
e de ternura.
Há palavras rubras
de desejo
Há infinitos por detrás
de cada beijo.
Há um corpo ardente
que se abraça.
Há lábios de fogo
e de loucura
sedentos de beber
na mesma taça!...
.
albino santos
Reservados todos os direitos de autor

quarta-feira, 18 de Março de 2009

EM MINHAS MÃOS...TEU VOO

















Voa nas minhas mãos, leva-as contigo
pelas cordas do violino que teus olhos tocam
quando emudecem por detrás das pálpebras sorrindo.
Sou nas minhas mãos, o íntimo do nada
onde, bruscamente, mil estrelas foram luz!


Sou nas minhas mãos, o secreto sabor da madrugada.
A ternura silenciosa na hora íntima da noite.
O desejo de sentir a proximidade dos teus lábios,
secretos e maduros, como versos inquietos
entre o sonho e a fúria!


Voa nas minhas mãos… a noite não vai existir
porque as nossas bocas, vão acender a madrugada
numa aurora de beijos…




albino santos

Reservados todos os direitos de autor

sexta-feira, 13 de Março de 2009

ORFEU

Quero escrever para ti um meticuloso poema!
Um verso de fulminante deslumbramento,
como o teu corpo despido devagar…

Mas as palavras fogem, deixam-me aflito.
Onde uma palavra se dá, outra se esconde,
como se escrever o poema fosse delito.

Fogem esquivas, como deusas, como putas,
numa simulação perfeita, eficaz e suprema
na insegura e frágil estrutura do poema.

Mas chamarei sem tempo as palavras que preciso,
até que cansada e enrouquecida a minha voz
me deixe angustiado falando a sós,

ainda que as palavras desfaleçam ao chegar,
prostituídas nesta voz que o tempo corrompeu
como o teu corpo despido devagar!...


albino santos

Reservados todos os direitos de autor

terça-feira, 10 de Março de 2009

ENTREGA
























Delirando entre sonhos,
verdades, desejos
e loucuras,
entre o toque da caneta no papel
e o teu sorriso,
é tão curta a distância
dos meus braços aos teus.
É tão fácil tocar os nossos lábios.
É tão curto o caminho.

Fico a pensar o que busco em ti,
enquanto o desejo alastra,
insubmisso,
como se procurasse
um esconderijo urgente.
Como se a penumbra tivesse olhos
e pudesse ver através da noite.

Sinto-te deslizar como o vento
propagando sem destino
surpresas e carícias,
suavidade e tumulto.
Tão subtil... tão viva!
Júbilo da nudez
que finalmente desperta
na insana amaragem dos meus lábios.

albino santos
(in "Madrugada sem Fronteiras")


Reservados todos os direitos de autor

domingo, 8 de Março de 2009

TU



TU, que ocultas nos teus olhos a força dos elementos

TU, que no teu sorriso alimentas uma esperança

TU, que nos teus lábios emergem fantasias

TU, que no teu rosto transparece a ansiedade

TU, que no teu silêncio se revelam mil desejos

TU, que em tuas mãos despertam subtis carícias

TU, que em cada gesto dominas o impulso

TU, que sabes ser o tempo a eternidade,
e sabes que a vida não perdoa hesitações,
não temas por mais tempo a realidade
não reprimas no peito as tuas emoções

TU, que sabes existir em tudo imperfeição,
e sabes haver outro horizonte à tua espera,
não pode haver tratado, regra ou convenção
que impeça de viver a tua primavera…

TU, que sabes ser a vida apenas um momento
e sabes que há-de vir a hora da verdade,
solta as tuas velas à mercê do vento
E parte deste cais rumo á liberdade!...



.
albino santos
(in Passos, Traços e Laços)


Reservados todos os direitos de autor

terça-feira, 3 de Março de 2009

NOCTURNO




















Naufragamos
num suspiro de seda
que se dissipa

no profano azul do universo.
E quando o fazemos,
rendemo-nos á noite esbelta
e já tão nua,
perdidos numa rima
de lábios vermelhos.

É aqui o prazer exacto,
a carícia impura,
onde a língua tem sabor a sal
e o vício acende
o corpo do poema.

Calados de palavras,
outros sons
enchem o espaço.
Somos seiva,
suco e mel,
um pedaço de infinito,
um imenso abraço
dissolvido num só grito!...

.

albino santos
.

Todos os direitos reservados


.